A insignificante Super Lua

27.11.2016

 

A Lua sempre encantou diversas sociedades deste a antiguidade, talvez o fato dela ser facilmente observada (é o segundo astro mais brilhante para a terra) desempenhou papel fundamental para a criação dos diversos mitos nas mais diversas culturas, como para os chineses, a qual representa novos tempo de colheita. Aos católicos ajuda a determinação do domingo de pascoa e em grande parte da cultura nórdica é representado como símbolo de fecundidade ou mesmo como deus na cultura asteca. Esses simbolismos e tradições humanas antigas são incríveis formas de explicações de uma era antes do formalismo científico ou do desenvolvimento da astronomia.

 

Super Lua é o nome dado a coincidência da fase de Lua cheia ou nova quando esta se encontra no ponto mais próximo da sua terra, em sua órbita elíptica (perigeu), resultando assim um tamanho aparentemente maior quando visto da terra. Super Lua não é um termo astronômico, mas um nome dado pela cultura popular, o termo técnico ao fenômeno é sizígia perigeu. Um fenômeno oposto, isto é, quando a Lua se encontra no ponto mais afastado(apogeu) , também existe e é chamado de Micro Lua, porém este não é tão famoso quanto o primeiro. A figura abaixo ilustra os dois fenômenos.

 

 

 

A distância da Lua varia a cada mês, entre aproximadamente 357.000 km e 406.000 km devido à sua órbita elíptica em torno da Terra (as distâncias são dadas centro a centro). A Lua cheia, no perigeu, é visualmente maior em 14% de diâmetro (ou cerca de 30% na área) e brilha 30% mais luz do que uma no seu ponto mais distante, ou apogeu. A Super Lua de 14 de Novembro vem sendo chamada “Super Lua do Século", mas esta informação está errada! De fato, a última vez que tivemos uma lua tão próxima assim foi há quase 70 anos em 1948. Porém, a Super Lua do dia 14 de novembro não será a maior do século, ela é apenas a sexta mais próxima deste século (aproximadamente 356523 km) como pode ser verificado na  tabela).

 

Diferente do que pode parecer, tais eventos são bastante comuns. O ciclo no qual a Lua se encontra no perigeu lunar com o sol e a terra é de 13.9444 meses (cerca de 411.8 dias). Assim, aproximadamente a cada 14 Çuas cheias ocorrerá uma “Super Lua”. No entanto, a meio do ciclo a Lua cheia estará perto do apogeu, e as Çuas novas imediatamente antes e depois podem ser “Super Luas”, ou seja, podem ocorrer três Super Luas por ciclo de Lua cheia.

 

 

Quando a Lua está mais próxima da Terra, sua atração gravitacional está em seu pico, portanto a questão torna-se quanto é que a influência gravitacional da Lua sobre a Terra pode variar de mínima (apogeu ) à máxima ( perigeu )? A variação é de cerca de 23%.  Pode soar como muito, mas isso equivale a menos de 2 milésimos da massa da Lua.

Vamos mudar um pouco a perspectiva para melhor entender. Supondo o meu peso no mês passado, 80 kg, a diferença máxima entre o apogeu e perigeu lunar é de cerca de 73 miligramas. Se você levar em consideração o efeito da gravidade solar para um Super Lua, este efeito pode subir para cerca de 110 miligramas.

 

Em ambos os casos, os efeitos são imperceptíveis, e muito menor do que os encontrados em outras situações cotidianas, tais como estar perto de uma montanha ou mesmo passar ao lado de um grande edifício. Imaginem como seriam as interações fisiológicas do corpo humano se tais forças fossem significativas? Teríamos uma grande variação gravitacional ao sair de uma cidade do interior em direção a uma grande metrópole.

 

A ação gravitacional da Lua, como bem sabido, é fundamental para as marés oceânicas. Elas são diretamente afetadas por esse efeito gravitacional, mais precisamente efeito gravitacional diferencial. Especificamente, a força da gravidade exercida sobre a parte da Terra oposto ao da Lua (o lado mais distante da Terra, como pode ser visto a partir da lua) é ligeiramente menor do que a força da gravidade exercida sobre a parte de terra diretamente por baixo da lua a todo instante, pois há uma distância adicional de 12.8 km de um lado da terra para o outro. E como sabemos, a força da gravidade enfraquece com o aumento da distância, produzindo assim uma ação diferencial entre os dois extremos.

 

O fabuloso resultado deste efeito gravitacional diferencial provocado pela Lua é que nosso planeta é esticado um pouco ao longo da linha de ação entre a terra e a lua. A terra, em si, é bastante rígida a essa ação, porém os fluidos como oceano e atmosfera são muito mais facilmente deslocados, movendo grandes quantidades principalmente próximo à linha do equador. Assim, o efeito acumula a água em cada lado da Terra, e estas pilhas de água – criada pelo efeito gravitacional diferencial – são chamadas marés.

 

Tecnicamente, o mesmo efeito atua sobre o seu corpo, uma vez que um lado está mais longe da Lua do que o outro. No entanto, a diferença em distância é da ordem de um pé, em vez de milhares de quilômetros. Assim, o diferencial é milhões de vezes menor, e o efeito sobre o corpo humano infinitamente pequeno e irrelevante. Caso fosse significativo, você poderia observar o fenômeno da ação gravitacional diferencial enquanto toma uma sopa.

 

Sabendo que a interação gravitacional lunar é fundamental na formação das marés (não somente, existem outras componentes devido a outros astros), podemos então inferir que quando ocorre lua cheia ou nova próximo ao perigeu, a força de maré tenha um efeito mais intenso. Quando isso ocorre, chamamos de Maré de sizíga perigeu. Porém, as variações médias dessas marés em todas as áreas do litoral são pequenas. Na maioria dos casos, a diferença é apenas de duas polegadas acima dos valores médios.

 

Alegou-se que a Super Lua de 19 de março de 2011 foi responsável pelo aterramento de cinco navios em Solent, no Reino Unido,  mas tais alegações não são apoiadas por qualquer evidência.  O Folclore afirma que todos os tipos de coisas loucas acontecem sob a luz da Lua cheia,  a ideia de que esta Lua provocava transtornos mentais era difundida principalmente na Idade média, tendo até a palavra “lunático”, que significa “insano" vindo da palavra latina Luna. São atribuídos à Lua o aumento de internações hospitalares, aumento da taxa de criminalidade, interações com a menstruação feminina, entre outras relações inusitadas (já escrevi outro texto sobre o assunto, para lê-lo, clique aqui)

 

Porém, como o leitor esperto,já imagina, a maioria dos estudos modernos não mostram correlação e ou causalidade entre o efeito lunar e a vida agitada na Terra.

Super Luas são importantes, pois podem chamar a atenção para alguns aspectos da Lua, da astronomia e da natureza em geral. Porém, em linhas gerais, os efeitos não são exatamente "SUPERS". Grande parte dos mitos criados sobre a Lua são extrapolados no caso da Super Lua, mas não existem evidencias razoáveis para tal. Os efeitos que as pessoas podem sofrer são mais psicológicos e culturais, devido às crenças, do que físicos, propriamente dito.

 

Texto originalmente postado na página "Unidades imaginárias"

 

 

Alberto Akel é graduado em Geofísica pela UFPA, com Mestrado pelo Observatório Nacional na área de Geofísica com foco em tempestades geomagnéticas e analise de dados e Doutorado

pela RAAM/inpe, em modelagem de ondas eletromagnéticas de radio em plasma onosférico na área de concentração geofísica espacial, clima espacial e modelagem e analise numérica. Escreve no blog "Unidades Imaginárias": https://unidadesimaginarias.wordpress.com/

 

 

 

Referências e leituras

 

I. W. Kelly, James Rotton, and Roger Culver, The Moon Was Full and Nothing Happened, Skeptical Inquirer Volume 10.2, Winter 1985-86
F. L. da Silveira, Marés, fases principais da Lua e bebês. Publicado no Caderno Brasileiro de Ensino de Física, 20(1): 10-29, 2003.
Biermann, T et all. Influence of Lunar Phases on Suicide: The End of a Myth? A Population‐Based Study.Chronobiology International. 07 Jul 2009

Nature News: Pull of the Moon

Nature World News : Record-Breaking Biggest Supermoon, the Largest this Century

NY TIMES:  The Moon Comes Around Again

Science Nasa :2016 Ends with Three Supermoons

Zero Hora: Entenda por que a superlua não é tão super assim

Earth Sky: Super effect on us from a supermoon?

Ocean service NOAA: What is a perigean spring tide?

Astropixel: Full Moon at Perigee (Super Moon): 2001 to 2100

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

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