Poema: Elogio à Derrota

26.11.2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ELOGIO À DERROTA
(a um hamster caolho, há muito defunto)

 

I.
Muito do Hagakure,
meu amigo,
acabou datado como os cabelos
e a honra daqueles senhores
orgulhosos demais
para serem seus vizinhos
em Sorocaba, Tatuí,
São Paulo, Presidente Prudente
ou qualquer município
minimamente decente
nas últimas semanas
deste verão perdido.

O que tento dizer é
(dois-pontos)
ponha uma pedra
para sempre sobre
tsujigiri mas
lembre-se da morte,
porque tem coisa que
sai de moda mas
você para sempre vai
transcender a consciência
direto pro todo domínio
de coisa nenhuma.

II.
Pense na morte porque
do parto ou do café
que esfriou é um pulo,
de sua mãe não restou
nada desde a mudança
e daí para trás é apenas
suposição desnecessária.

Pense na morte durante
sua cagada matinal –
após o primeiro cigarro
antes do pão com manteiga –
enquanto é tudo suspenso
sobre o dia e sobre a louça.

O dia não existe,
aliás, 
e sentido não passa de
superstição besta
(dois-pontos)
pense na morte porque
qualquer caminho é o caminho.

(pontuar para além seria preconceito)

III.
Pense nela
agora que não quero mais palco –
após a comunicação falhar
toda palavra é só passatempo.

O que tento dizer é que 
Sal Buscema e Dostoiéviski,
Vincent Price ou Baudelaire,
urgente se faz que
dê tudo na mesma.

IV.
Só pense na morte
chegada faz tanto
agora que você partiu
há pelo menos dez anos.

Você estava correto quando
fugia da gaiola na madrugada
pelo simples querer o lado de fora.

V.
Ultimamente só desenho retratos
que acabam sempre, todos, no lixo.

Mas não me arrependo.

Abraços e recomendações carinhosas,
não deixe nunca de não ser.

 

-(Marcelo Pierotti, 18 de novembro de 2016)

 

Marcelo Pierotti, autor do livro Domingo no matadouro, nasceu em Tatuí, no dia 5 de maio de 1984. De lá partiu para outras cidades e casas pelo interior do estado – dentre as cidades, sua terra natal de escolha: Sorocaba – até se assentar por enquanto em São Paulo, onde se gradua em Letras pela USP. Publicou em fanzines num passado remoto, em alguns sites pequenos o tempo todo e teve uma experiência bruta mesmo que rápida com esquetes de humor para a internet. O livro Domingo no matadouro foi premiado pelo ProAC - 2012 - Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura - e integra a Coleção Patuscada.

 

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RESSURECTIONE

POR LUIZ PIEROTTI

 

Em meio à festa, à dança. à diversão: o tempo passa.
Em meio ao trabalho, o relatório, o feedback: o tempo passa.

Durante o domingo, durante o sexo, durante a partida de futebol e a risada pós piada, cada segundo passa, escorrendo pelo rastro de tantos outros segundos perdidos, de tantas outras ideias esquecidas, de tantos outros desejos abandonados.

Se uma ideia não realizada é uma ideia inexistente, então também cada palavra não proclamada é um pensamento inexistente. Cada plano abandonado uma rendição prévia. E a cada tópico anteriormente citado, uma inexistência de parte do que nos constitui.

Totentanz é a recordação do tempo constante, é a observação do tudo no agora.

É a busca, mesmo que sempre busca, da observação do caos em sua plenitude.

O Manifesto não busca a individualidade, nem a remediação do singular. 

Pretende a busca da identificação exterior do sujeito de Rimbaud. O continente humano de John Donne. A celebração de Whitman. A razão de Hamlet. O tempo: Chronos e Kairós.

   MANIFESTo TOTENTANZ    

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